sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Encontrei Mano Alvaiade, Nosso Antigo Diretor de Harmonia"



Salve Salve Gente Bamba,

Hoje pretendo fazer um post sobre mais um grande sambista da “Minha Portela Querida”.

Oswaldo dos Santos, ou simplesmente como era conhecido, Alvaiade.

Alvaiade foi um dos grandes compositores da Portela, e fez parte da escola desde a época em que ela ainda se chamava “Vai como pode”.

Ele foi convidado a integrar a escola de samba por Paulo da Portela, de quem conquistou tanta simpatia que inclusive o representava algumas vezes a frente da Portela em suas ausências.

Alvaiade, foi chefe de conjunto na Portela, era ele quem organizava os ensaios de modo geral, era uma espécie de Diretor de Harmonia. Ele também foi um dos poucos sambistas de Oswaldo Cruz que conseguiu uma brecha na era do rádio, e foi gravado por nomes como Ataulfo Alves, Linda Batista, Ciro Monteiro, Odete Amaral, dentre outros.

Como são raras as imagens desta época, postarei um trecho retirado do vídeo VELHA GUARDA DA PORTELA 1975, onde Alvaiade aparece apresentando alguns de seus sambas.

Postarei também três áudios onde os sambas, Concurso pra Enfarte (Alvaiade) e O Mundo é Assim (Alvaiade) são interpretados pelo próprio Alvaiade e os sambas Embrulho que eu carrego (Alvaiade/Djalma Mafra) e Vida de Fidalga (Alvaiade/Chico Santana) são interpretados por Cristina Buarque e Terreiro Grande.

E ainda, abaixo do vídeo e dos áudios, tem uma entrevista cedida por Alvaiade e publicada no encarte do disco "História das Escolas de Samba vol.2".

Neste registro, o compositor fala de sua relação com a Portela, com os compositores, do grande Paulo da Portela e conta outros casos maravilhosos, como por exemplo, o deste trecho aqui abaixo;

“Me lembro de outro também que fiz baseado nos vendedores que corriam os trens vendendo tudo. Bala, Jornal, etc. Conhecia até alguns pelo nome, como o Cheiroso. Era assim:”

"Baleiro Balas a dez, um tostão
Queijeiro Queijo de Minas é bom
Jornaleiro
Meu Deus do Céu que moçada
Ele vem gritando
Diário da noite Olha o Globo e Vanguarda
Chegou o Cheiroso
Tem a descrição encerrada"


Por hoje é só amigos, aproveitem o material sem moderação.

Salve o Samba, Salve a Portela, Salve Alvaiade.

Até a próxima. ___________________________________________________________________________Alvaiade - Embrulho que Carrego e O Mundo é assim


___________________________________________________________________________AUDIOS

concurso para enfarte:



o mundo é assim:



embrulho que eu carrego - vida de fidalga:


___________________________________________________________________________ENTREVISTA:

Desde quando você está metido em samba?
Alvaiade: Desde 1928. Naquela época, o Paulo da Portela morava na Estrada da Portela, 276, que era um correr de casas que tinha o apelido de barra preta. Eu morava na Rua B, em Oswaldo Cruz, e tinha um bloco carnavalesco por lá. E o Paulo me convidou para a Portela.

O seu bloco era grande?
Alvaiade: Pequeno. Éramos eu, o falecido Brasileiro, o Zé Cachacinha, o Alvarenga, um grupo pequeno. O Alvarenga já pertencia à Portela antes de mim.

Como é o seu nome, Alvaiade?
Alvaiade: Oswaldo dos Santos. Nasci a 21 de novembro de 1913, aqui na Estrada da Portela.

Quando você entrou pra Portela já era compositor?
Alvaiade: Não, eu acompanhava o pessoal, fazia um centro no cavaquinho, cantava, etc. Depois é que eu comecei a fazer música.

A primeira vez que você saiu na Portela já era pra desfilar na Praça Onze?
Alvaiade: Não. A primeira vez foi para participar de uma roda de samba em Bento Ribeiro, na casa do Paulo de Bento Ribeiro. Aliás, a razão do Paulo da Portela ganhar esse nome foi por causa do Paulo de Bento Ribeiro, que também era do samba.

Como é que o Paulo da Portela tratava os mais novos como você?
Alvaiade: O Paulo era uma figura humana fora de série. E muito observador. Eu era muito garoto naquela época e ele chegava até a me entregar certas responsabilidades dentro da escola, como a de substituí-lo de vez em quando, na sua ausência. Quando ele ia pra São Paulo, mais tarde, com o Cartola e o Heitor dos Prazeres, quem preparava a escola era eu, como chefe interino, além do Ventura e o Alcides, que eram os diretores de harmonia. Quando ele chegava era só pra comandar a escola.

Ele chegou até a apontar você como substituto dele, não foi? Alvaiade: Foi. Ele sempre dizia aos visitantes que iam à Portela: “Esse é o pequeno que me substitui”. Aquilo me dava muito entusiasmo. Minha prova de fogo foi em 1934. Foi uma festa na Portela e recebemos a visita de uns doutores, coisa muito rara na época numa escola de samba. E fui eu quem recebeu o pessoal. Depois foi num batismo de uma escola de samba lá no Botija. Fui incluído na delegação da Portela, mas como um simples integrante. Quando saltamos do bonde, o Cláudio de Quintino me falou: “Olha alvaiade, o Paulo disse pra você fazer a cerimônia”. Aí, tomei as medidas. Formei a rapaziada, tiramos um samba quando chegamos, houve aquela troca de gentilezas, aquela coisa toda. Eu sei que fui bem, pois o Cláudio de Quintino me deu os parabéns depois.

O Paulo era um boa praça, mas era muito exigente também, não é isso? Principalmente com a roupa.
Alvaiade: É verdade. Ninguém podia se apresentar com chinelo charlote porque o Paulo não gostava. O pessoal do Estácio, por exemplo – e isso não é querer falar mal, mas falar a verdade – apresentava-se muito bem, com ternos caríssimos. Mas de chinelo charlote e lenço no pescoço. O pessoal da Portela não. A gente tinha que andar de sapato e gravata. O Paulo dizia assim: “Quero todo mundo com o pé ocupado e pescoço também”. Quer dizer: sapato e gravata. Por sorte, a nossa rapaziada quase não bebia. A gente era diferente das outras escolas

Como é que foi a briga do Paulo com a Portela?
Alvaiade: Nessa época – foi no carnaval de 1940 – eu estava chefiando a escola no lugar do Paulo, que estava em São Paulo, com o Cartola e o Heitor dos Prazeres. Ele chegou na hora em que a escola estava formada pra desfilar na Praça Onze e queria que os companheiros dele desfilassem também. Mas o problema é que eles estavam com uma fantasia preta e branca e o pessoal da diretoria achou que não era direito. Se o Paulo quisesse desfilar, tudo bem. Mas seus companheiros é que não podiam.

Toda a diretoria pensava assim?
Alvaiade: Toda. Ainda dissemos pra ele que os companheiros dele podiam entrar na escola, mas só depois que passassem pela comissão julgadora. Chamamos o Manoel Bam Bam Bam e ele repetiu para o Paulo a mesma coisa. Aí o Paulo disse: “Se eles não podem entrar, eu também não entro”. O Manoel Bam Bam Bam levantou a corda – naquela época as escolas desfilavam com corda - e falou: “Então você não desfila, pode sair”. O Paulo saiu e nunca mais desfilou pela Portela.

Mas ele nem visitava a escola?
Alvaiade: Oito dias depois, a gente estava comemorando a vitória da Portela lá na sede. E o Paulo apareceu com o Pessoal da Mangueira. Me lembro que ele estava com o Cartola e o Chico Porrão. Ele estava esquisito, de um jeito que eu nunca tinha visto assim. Acho que tinha tomado umas e outras, que ele não era de beber. Eu sei que chegou na Portela, trepou na mesa e começou a fazer um discurso: “Vocês crianças, vocês ursos”, não sei o que, falando coisas que não eram do feitio dele. Até os parentes dele ficaram revoltados com a situação. Eu ainda pedi a palavra tentando contornar o problema, mas havia uma grande revolta. Saímos Dalí e fomos para uma área, onde é hoje o botequim do Nozinho, irmão do Natal, e o Paulo puxou um samba da Mangueira: “Vou partir sem briga” e não sei o que mais. Eu aí, puxei um samba assim:

“Seja feliz com seu novo amor
Porque eu vou procurar o meu bem estar
Pode arranjar quem você quiser
Só peço pra de mim esquecer, mulher”


É um samba do Mijinha, o autor de “Sentimento”, que o Paulinho da Viola gravou. Mas o ambiente não estava bom não. E o pessoal da Mangueira percebeu isso. Me lembro até que o Chico Porrão falou assim pra mim: “Alvaiade, eu não tenho um alfinete pra me defender”. Eu falei pra ele assim: “Não tem nada não, aqui você está como se estivesse em sua própria casa”. Mandei um componente da Portela ir até Madureira buscar um carro, mas naquela altura tinha gente afim de pegar alguém, não sei se o Paulo ou o pessoal da Mangueira. Quando o carro chegou, botei a rapaziada lá dentro e fui em pé, no estribo, até lá fora protegendo eles. Na volta, veio uma porção de gente em cima de mim me espinafrar porque eu protegi o pessoal. O Paulo saiu e a Portela passou sete anos ganhando os desfiles na Praça Onze. Ele nunca se esqueceu da Portela. Muitas vezes, a gente ficava conversando em cima da ponte de Oswaldo Cruz e ele perguntando como é que ia o negócio, aquelas coisas. Ele estava na escola de samba Lira do Amor, mas não esquecia a nossa escola. No ano que ele ia voltar, morreu.

Você chamava o Paulo de você ou de senhor?
Alvaiade: Você mesmo. Era o Mano Paulo.

Havia muita gente na Portela no início da escola?
Alvaiade: Não. Houve um ano - não sei se 1931 ou 32, não me lembro - que aconteceu um negócio que nunca mais esqueci. Nós íamos descer pra desfilar na Praça Onze e fomos pegar o trem na estação de Dona Clara. O Rufino, que era o tesoureiro, pagou 90 passagens. E se queixou: “Meu Deus, isso não é mais uma escola de samba, é um rancho. Nunca vi tanta gente numa escola de samba”.

É verdade que no início eram homens que desfilavam de baianas?
Alvaiade: É. Nós não tínhamos baianas no início. Quem saía de baiana era o Claudionor, o Boaventura, o Manoel Bam Bam Bam, o Antônio Mestre Sala e outros. Era um grupo de homens que saía de baiana.

Não tinha mulher na Portela?
Alvaiade: Tinha. Não saíam de baiana. Quando a gente ia, por exemplo, a uma batalha de confete, o próprio Paulo ia de casa em casa pedir consentimento às famílias para levar suas moças com a escola. Depois entregava todas elas em suas casas. Éramos uma família.

Mas havia aquele negócio de que sambista era sinônimo de marginal?
Alvaiade: Havia. Inclusive falavam isso da Portela, que é uma escola da Planície. Mas conosco não havia problema.

Você se lembra dos seus primeiros sambas para a Portela? Alvaiade: Mais ou menos, acho que era um assim:

“Meu amor
Não me maltrate assim
Meu bem
Não sei que mal eu fiz
Agora sei que me odeias
Mas algum dia
Ainda espero ser feliz”


Me lembro de outro também que fiz baseado nos vendedores que corriam os trens vendendo tudo. Bala, Jornal, etc. Conhecia até alguns pelo nome, como o Cheiroso. Era assim:

“Baleiro Balas a dez, um tostão
Queijeiro Queijo de Minas é bom
Jornaleiro
Meu Deus do Céu que moçada
Ele vem gritando
Diário da noite Olha o Globo e Vanguarda
Chegou o Cheiroso
Tem a descrição encerrada”


Além de dirigente da escola, o Manoel Bam Bam Bam também foi mestre sala, não é isso?
Alvaiade: Ele foi o primeiro mestre sala da escola. Foi mestre sala por 24 anos. A primeira porta bandeira foi a falecida Braulina.

Qual foi a primeira vez que a Portela desfilou na Praça Onze cantando um samba seu?
Alvaiade: Foi em 1934, mais ou menos.

“Eu só queria saber
Porque és tão fingida assim
Deves bem compreender
Ora meu bem
Eu só amo você
A mais ninguém”


Aí o pessoal fazia o improviso. Naquele tempo não havia segunda parte feita. Havia os versantes, como o João da Gente, que até foi apelidado de Gogó de Ouro. O Claudionor, o Ventura também eram grandes improvisadores e geralmente era o pessoal da direção de harmonia quem fazia isso. O Claudionor e o Ventura eram da Harmonia.

Você também foi diretor de harmonia?
Alvaiade: Eu fui chefe de conjunto quase vinte anos. E dentro dessa função eu fazia tudo. O chefe de conjunto era responsável pelos ensaios de um modo geral. Era uma espécie de diretor de harmonia. Tinha que ter noção de bateria, examinar vozes, isso tudo. Eu era o homem de sete instrumentos na Portela. Recebia visitas em nome da escola, visitava as co-irmãs, tudo isso eu fazia. E fazia discursos também.

O Paulo fazia discursos. Ele era bom orador?
Alvaiade: Puxa, ele tinha o dom da palavra. E era de uma gentileza de deixar todo mundo pasmado.

Naquele tempo que a Portela iniciava você já era um camarada conhecido no meio do samba?
Alvaiade: Bem, o que me fez mais conhecido foi o futebol. Aliás, foi no futebol que ganhei esse apelido de Alvaiade. Joguei no infantil da Portela, depois passei para o segundo quadro e acabei no primeiro. Em 1935 eu estava jogando no primeiro time da Associação Atlética Portuguesa. Em samba eu apareci mais por causa da minha função de organizador. Minha maior preocupação era lançar os novos compositores. Esses novos compositores são os velhos de hoje: o Manacéia, Walter Rosa, Candeia, Chico Santana e muitos outros.
Houve uma época que combinei com os compositores que cada um só podia lançar duas músicas por ano. Todo mundo cumpriu. Mas houve um ano que o Chico Santana encontrou comigo na padaria e me trouxe um problema. Ele já tinha apresentado os seus dois sambas, mas tinha um terceiro que não queria deixar de lado. Me cantou o samba e eu gostei. Fiquei em dúvida e acabei quebrando o protocolo. Afinal, ele podia morrer, ou eu, e o samba ficaria esquecido. Hoje o samba é considerado, oficialmente, o hino oficial da Portela.

“Portela Suas cores tem
Na bandeira do Brasil
E no céu também
Avante portelense
Para a vitória
Não vê que seu passado
É cheio de glória
Eu tenho saudade
Desperta, oh grande mocidade”


Nos primeiros tempos, onde era mesmo a sede da Portela?
Alvaiade: Ora, a sede. A sede? Bem, às vezes a Portela ensaiava na casa do Benício. No carnaval saia da casa do Caetano ou da casa do Rufino. Mais tarde é que alugamos uma casa na Estrada da Portela, onde é hoje o bar do Nozinho. Tinha uns 20 metros quadrados e era ali que a gente ensaiava.

E a famosa jaqueira da Portela?
Alvaiade: Era num terreiro na esquina da Estrada da Portela com a Rua Joaquim Teixeira. De fato, o pessoal ia pra ali, agora eu me lembro, ali onde é o bar do Nozinho tinha uma jaqueira sim.

Depois do Manoel Bam Bam Bam, quem ficou de mestre sala na Portela?
Alvaiade: O Antônio, que também ficou muito tempo. Aliás, tanto o Antônio quanto o Manoel já são falecidos. Depois dos dois, apareceram outros, mas não ficaram muito tempo não.

Fim.

2 comentários:

  1. Não há créditos ao entrevistador, mas creio que seja o sérgio Cabral, editor de texto do fascículo.

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